A redação do ENEM vale mil pontos e é corrigida em cinco competências, cada uma valendo até duzentos. Quatro delas medem coisas que o aluno vem construindo desde o Ensino Fundamental: domínio da norma culta, compreensão da proposta, seleção e organização de argumentos, e uso dos mecanismos que costuram o texto.
A quinta é diferente. Ela pede algo que quase nenhum aluno foi treinado a fazer, e que não se resolve lendo mais: propor uma solução para o problema que ele mesmo acabou de descrever.
É a competência 5, a proposta de intervenção. E é, na prática, a que mais separa uma redação boa de uma redação excelente.
Por que ela é diferente das outras quatro
As competências 1 a 4 avaliam o texto que o candidato escreveu. A competência 5 avalia uma capacidade que não é de escrita: é de projeto. O estudante precisa sair da análise e entrar na ação — dizer quem faz o quê, como, para quê, e explicar essa ação com detalhe suficiente para que ela seja avaliável.
Segundo a matriz oficial publicada pelo Inep na Cartilha do Participante, a proposta precisa articular cinco elementos: o agente (quem executa), a ação (o que será feito), o modo ou meio (como será feito), o efeito ou finalidade (para que será feito) e um detalhamento de algum desses elementos. Faltando elementos, a nota cai por faixa, mesmo que o texto seja bem escrito.
E há um segundo critério, que costuma pegar os alunos mais bem preparados: a proposta precisa respeitar os direitos humanos. Uma solução que proponha punição desproporcional, exclusão de um grupo ou supressão de direito derruba a competência inteira — e, dependendo do teor, a redação.
Por que a maior parte dos alunos tropeça aqui
A competência 5 exige três coisas que a escola raramente ensina junto.
Repertório de política pública. Para propor um agente plausível, o aluno precisa saber que existe um Ministério da Educação, um conselho tutelar, uma secretaria municipal, uma legislação. Não é conteúdo de gramática, e não costuma estar na aula de português.
Especificidade. “O governo deve investir em educação” não é proposta de intervenção: é desejo. “O Ministério da Educação deve ampliar a formação continuada de professores do 6º ao 9º ano, por meio de plataformas de ensino a distância, a fim de reduzir a defasagem na transição entre etapas” é proposta — tem agente, ação, meio e finalidade.
Tempo de prova. A competência 5 mora no último parágrafo. O aluno que administrou mal o tempo escreve a parte mais difícil da redação em cinco minutos, exausto, depois de já ter gasto a energia na argumentação.
O que a pesquisa diz sobre como se melhora nisso
Aqui está a boa notícia, e ela é contraintuitiva: a competência 5 é provavelmente a mais treinável das cinco. Não porque seja fácil, mas porque responde muito bem ao tipo de prática que a pesquisa sobre aprendizagem já mapeou.
Feedback que explica vale quase dez vezes mais do que feedback que corrige. Uma meta-análise de Van der Kleij, Feskens e Eggen (2015), com 40 estudos, encontrou efeito de 0,49 para feedback elaborado — o que explica por que algo está errado e como melhorar — contra 0,05 para o feedback que apenas informa se está certo ou errado. Aplicado à redação, isso é a diferença entre devolver o texto com uma nota e devolver o texto com a pergunta “quem, exatamente, faria isso?”. Uma ressalva honesta dos próprios autores: os efeitos medidos foram menores na educação básica do que no ensino superior.
Prática distribuída vence prática concentrada. Cepeda e colegas, em meta-análise com 839 medições em 317 experimentos, mostraram que o intervalo entre as revisões precisa crescer conforme cresce o prazo até a avaliação. Traduzindo para a redação: um aluno que escreve uma redação por mês durante três anos chega em melhores condições do que um aluno que escreve dez em outubro do terceiro ano — mesmo somando o mesmo número de textos. A ressalva é que a maior parte desses experimentos usou material verbal simples, não produção de texto.
Recuperar é melhor do que revisar. A revisão sistemática de Agarwal, Nunes e Blunt (2021), com 50 experimentos em salas de aula reais, encontrou benefício médio ou grande em 57% dos casos para a prática de recuperação. Aplicado aqui: pedir ao aluno que reconstrua de memória a estrutura de uma proposta de intervenção ensina mais do que mostrar a ele um modelo pronto para copiar.
O denominador comum dos três achados é o mesmo, e é o oposto do que o mercado de cursinho costuma vender: não existe fórmula que resolva a competência 5. Existe frequência, correção individual e tempo.
Cinco perguntas para treinar em casa
Se o seu filho está no Ensino Médio, estas cinco perguntas, feitas sobre qualquer redação que ele escrever, cobrem a competência 5 inteira:
- Quem faz? Se a resposta for “a sociedade” ou “todos nós”, não há agente.
- Faz o quê? Um verbo de ação concreta, não “conscientizar”.
- Como? O meio precisa ser plausível: uma política, um programa, um canal, uma parceria.
- Para quê? A finalidade precisa se conectar ao problema descrito nos parágrafos anteriores.
- E o detalhe? Um dos elementos acima precisa vir explicado, não só citado.
E uma sexta pergunta, que vale a nota inteira: essa proposta respeita os direitos de todo mundo envolvido?
Por que isso importa antes do Ensino Médio
Um aluno que chega à 3ª série sem nunca ter escrito para alguém que devolveu o texto com comentário vai aprender competência 5 em nove meses, junto com todo o resto do conteúdo. Um aluno que escreve, recebe devolutiva e reescreve desde o Ensino Fundamental chega com a parte difícil já resolvida.
É por isso que o Colégio Concórdia desenvolveu material próprio de redação — o único componente em que a escola faz isso — e trabalha produção textual ao longo do percurso, e não como revisão de véspera. Os resultados da escola na redação do ENEM 2025 estão na página Resultados, com a nota de cada competência.
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Fontes
- INEP / Ministério da Educação. A redação no ENEM 2024 — Cartilha do Participante. Diretoria de Avaliação da Educação Básica. https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/a_redacao_no_enem_2024_cartilha_do_participante.pdf — documento oficial que define a matriz de correção e os cinco elementos da proposta de intervenção. Edição mais recente: A redação no ENEM 2025, no mesmo endereço.
- Van der Kleij, F. M.; Feskens, R. C. W.; Eggen, T. J. H. M. Effects of feedback in a computer-based learning environment on students’ learning outcomes: A meta-analysis. Review of Educational Research, 85(4), 2015. https://journals.sagepub.com/doi/10.3102/0034654314564881
- Cepeda, N. J.; Pashler, H.; Vul, E.; Wixted, J. T.; Rohrer, D. Distributed practice in verbal recall tasks: A review and quantitative synthesis. Psychological Bulletin, 132(3), 2006. https://escholarship.org/uc/item/3rr6q10c
- Cepeda, N. J.; Vul, E.; Rohrer, D.; Wixted, J. T.; Pashler, H. Spacing effects in learning: A temporal ridgeline of optimal retention. Psychological Science, 19(11), 2008. https://escholarship.org/uc/item/0kp5q19x
- Agarwal, P. K.; Nunes, L. D.; Blunt, J. R. Retrieval practice consistently benefits student learning: A systematic review of applied research in schools and classrooms. Educational Psychology Review, 33(4), 2021. https://link.springer.com/article/10.1007/s10648-021-09595-9




